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Virando um Rockstar e fugindo do Föhn: Meu 2°dia

O segundo dia começou do jeito que todo atleta de aventura sonha: dormindo numa van encharcada de adrenalina depois de uma tempestade no coração dos Alpes. Com o ronco da chuva ainda ecoando na cabeça, o alarme tocou às 4 da manhã. Nem precisei pensar — só levantei, amarrei o tenis, e saí.


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Ainda com as lanternas na cabeça, aceleramos para chegar na base da via ferrata antes do horário permitido de movimentação. Tudo estava molhado, escuro e escorregadio, mas aquela ansiedade boa de início de missão mantinha o corpo ligado no 220.

A subida pela via ferrata foi logo de cara uma cena de filme. Eu e mais dois ou três atletas despontamos na frente. Trocamos uma selfie lá no alto (óbvio, senão nem vale), e logo começamos a descida pela outra face da montanha — um zig-zag de cabos, degraus e rochas molhadas que exigia atenção constante.


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Subindo a via ferrata


Chegando à crista, a ideia era decolar. Só que o vale ainda estava coberto por um mar de nuvens tão branco que até dava vontade de mergulhar de cabeça. A dúvida era cruel: esperar que uma janela abrisse ou descer correndo e tentar decolar mais abaixo?

Esperamos. Uns vinte minutos de tensão, análise de camada, vento e esperança. Até que veio a informação que precisávamos: a base das nuvens estava viável. Não deu nem tempo de pensar duas vezes. Subi o parapente e decolei ao lado das Tre Cime, em uma cena que parecia comercial de energético — as nuvens abrindo, os picos surgindo, e o mundo lá embaixo esperando.



Voamos por entre as nuvens até pousar no fundo do vale, quase do lado de um hotel de filme, com lago, estrada e tudo mais. Um luxo momentâneo. Mas sem tempo pra admirar. O plano era subir para a próxima decolagem e tentar um voo em direção a Merano.

Foram mais de 2.000 metros de subida acumulada, com mochila pesada, calor e aquele dilema clássico: tiro logo e aposto na condição ou espero melhorar? A encosta ainda estava no lee side, mas às vezes bombava de frente. Subi mais um pouco, mirei em um paredão de frente para o vento e preparei tudo. Quando senti que era a hora, fui.


A decolagem foi de cinema. Vento entrando, vela subindo perfeita, e aquela sensação de que o dia ia render. Comecei a planar devagar, esperando que outros atletas decolassem e se juntassem. Quando se voa em grupo, a performance melhora, e o moral também.

Formamos um pequeno pelotão. Cruzamos vales, costurando as térmicas, se apoiando nas cristas, mantendo distância do teto das nuvens. Aos poucos, o grupo foi crescendo e voamos juntos por vários quilômetros, numa travessia estratégica entre as montanhas — mais protegida do vento previsto que batia forte nos picos principais.


Em certo momento, fiquei um pouco para trás, mas mantive a calma. Fui conservador, girando em cada bolha possível, ganhando altura com paciência. Acabei reconectando no pelotão alguns minutos depois, e conseguimos juntos chegar até o topo de Merano 2000 — onde a próxima via ferrata nos esperava.


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Só tinha um problema: eu estava sem cadeirinha e sem kit. Mas como toda boa história de montanha, o improviso salvou. Meu suporte conseguiu com a organização um kit reserva que parecia ter sido feito para dois de mim. Serviu. E lá fui eu, preso nos cabos, braços queimando, pernas tremendo — a mais física das vias ferratas da prova.

Na subida, vi alguns atletas me passando, outros ficando pra trás. Mas no fim, um pequeno atalho me colocou de volta à frente. Decolei de um pouso obrigatório no fundo do vale, com o vento soprando como ventilador no máximo. Manobrei com margem de segurança, matei a vela e já saí correndo. Assinei o turn point e fui para a face norte — onde o verdadeiro desafio do dia me esperava.


O Föhn estava chegando.


Naquela encosta, o vento canalizava em rajadas de até 40 km/h. Esperei uma baixa, me posicionei, e decolagem autorizada. Subi direto numa térmica de 10 m/s. Dez metros por segundo. É isso mesmo. Campeã da temporada até agora. Em minutos, estava 2.000 metros acima, e a montanha ficou minúscula lá embaixo. https://www.instagram.com/p/DMI2D0CPM7Z/ - Decolagem no Föhn


Continuei voando pelas cristas da face norte, caçando pequenas bolhas de lift, até que o vento se impôs de vez. Decidi pousar. Um campo de futebol virou meu heliporto improvisado.


E ali, com grama nos pés e o parapente no chão, recebi a notícia: eu estava entre os primeiros da corrida naquele momento.

Injeção de ânimo na veia.



Equipe reunida, mochila nas costas, um punhado de Doritos na mão, risadas soltas e aquele sentimento bom de quem está no lugar certo, fazendo exatamente o que deveria estar fazendo.


No caminho, ainda encontramos amigos, recebemos parabéns, trocamos histórias e tomamos uma decisão estratégica: cruzar para o outro lado do vale, onde o dia seguinte prometia mais possibilidades. Enquanto outros atletas subiram mais, decidimos descer.

A noite fechou com estrogonofe na panela e câmera na cara. A Red Bull mandou um filmmaker só para nos acompanhar. Rockstar por um dia. Literalmente.

E assim terminou o segundo dia do X-Alps: cansado, sujo, e absolutamente vivo.

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