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Entre a Largada e a Tempestade: Meu 1° dia no X-Alps

Acordei antes do alarme. Revisei mochila e equipamentos como checklist: mosquetão, variômetro, rádio, luvas. A equipe alinhou as funções numa última reunião curta — cada um sabia exatamente o que fazer. A ideia era simples: zero erros no primeiro dia.

Na largada, aquele clima de evento grande: pórtico, cinegrafistas, atletas e lendas circulando. Duas voltas correndo para fotos, quase como uma volta olímpica, e então a corrida começou de verdade.


A primeira subida foi no Hannenkan, a estação de esqui. Não vou fingir que estava tudo bem: senti o corpo pesado desde cedo. O que rolou no prólogo não foi acaso — havia algo sistêmico drenando energia. Três semanas antes, na Bornes to Fly, eu estava no ritmo dos líderes; aqui, parecia que uma virose discreta tinha me pegado. Fui ficando um pouco para trás, mas segui no meu passo.



No topo, o público mudou meu estado. Muitos gritos, muita gente, e um grupo de brasileiros me deu uma carga extra. Assinei a placa, equipei rápido e decolei.

O ar ainda estava “verde”, termais fracas. Tive paciência, investiguei. Encontrei um núcleo junto do Nicola Donini; ele atacou para um lado, decidi ficar e consolidar altura. No meio do caminho, achei uma térmica de ~4 m/s. Era a oportunidade para encostar no pelotão que sofria numa crista sombreada. Girei rápido, subi bem e me coloquei no topo do grupo. Dali, fui costurando linhas por debaixo das bases, mantendo margem.


Cruzamos uma área sensível de espaço aéreo — pousar ali significaria perder muito tempo andando e risco de ser eliminado. O pelotão se dividiu: o grupo mais alto passou por cima da crista; o meu, com Aaron Durogati e outros, precisou contornar até a face sul. Ali o voo voltou. Recuperamos altitude e, no caminho, cruzei com o Chrigel Maurer. Segui focado no meu plano.



Cheguei para o pouso em Sextten praticamente junto do primeiro grupo. Pousei limpo, assinei a placa e engatei a perna: cerca de 10 km e mais de 1.200 m de desnível até a base via ferrata.


No acesso à via, uma tempestade elétrica pesada nos pegou. A chuva caiu forte, o frio entrou rápido. Encontramos abrigo numa cavidade na rocha. Lá dentro, pelo menos dez equipes aguardavam. Eu tremia — cansaço, frio e o dia já cobrando. Eric, Cati e Ben fizeram a diferença: casaco, organização e uma manta térmica que salvou. Aquilo segurou o calor até a chuva aliviar.



O Ulrich, CEO da prova apareceu e definiu uma exceção: com a via ferrata inviável, poderíamos encerrar ali e desligar os trackers para retomar no dia seguinte. Fizemos isso.

Quando saímos, o cenário estava coberto por gelo — não neve fofa, mas blocos e placas espalhadas, trilhas viradas em riachos. Caminhamos com cuidado até o ponto em que a van estava. Comida, roupas secas, primeira noite oficial com a equipe completa. Planejamos acordar por volta das 4h, café às 4h30, mochila pronta e retorno à via ferrata ainda no escuro — uns 4 a 5 km com desnível pela frente.



Assim terminou o meu Dia 1 no Red Bull X-Alps: corpo cansado, cabeça no lugar e a equipe funcionando como deveria. Amanhã, recomeça.

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