Prólogo do Red Bull X-Alps tem reviravolta e destaque brasileiro entre os líderes
- GABRIEL JANSEN
- 31 de jul.
- 3 min de leitura
Atualizado: 24 de set.
Gabe Jansen surpreende no evento de abertura da maior prova de hike & fly do mundo, enfrentando desafios físicos e condições técnicas para cruzar a linha entre os primeiros colocados.

Tem dias que a gente acorda com o pé direito. Outros, com o pé no acelerador. No prólogo do Red Bull X-Alps, eu larguei com os dois.
Pra quem não conhece, o prólogo é tipo o "esquenta épico" da maior prova de hike & fly do planeta. Uma corrida mais curta, feita pra impressionar o público de Kitzbühel, com direito a arquibancada natural, drones cinematograficos sobrevoando e atletas saindo no tapa (do bem) por cada metro de vantagem.
Debaixo do pórtico de largada, 35 atletas, de 20 países, com dois anos de sangue, suor e GPS acumulados nas pernas. Eu tava lá. Coração disparado, contagem regressiva, e… RÁ!
Largamos num ritmo absurdo. Tipo, mais rápido que a ansiedade de quem tem voo agendado e vê a nuvem crescendo na decolagem. Mas eu e a Cati (minha parceira de missão) havíamos feito o caminho do prólogo nos dias anteriores — cada curva, cada subida, cada trecho proibido — pra não dar brecha pro erro. Só que o que veio pela frente não estava nos mapas.

This short pre-run was fast and important for the athletes
Ferdinand Vogel
Na primeira subida, percebi: meu corpo tava estranho. Coração travado em 185 bpm, pernas pesadas, respiração curta. Como assim, depois de 30 mil metros de desnível positivo acumulado nas semanas de pico(pensa: quase 3 Everests!) e um ciclo de treino impecável? Pois é. Algo dentro de mim tava testando os limites.
Cheguei ao cume arrastando o orgulho e entrei na fila de decolagem. Tensa. Só cabiam uns 4 parapentes e o espaço parecia menor que minha esperança naquele momento. Mas a sorte (ou talvez um bom anjo térmico) sorriu pra mim: o dia estava estável demais — o que pra muitos era um pesadelo, pra mim era oportunidade.
Decolei junto com o segundo pelotão e comecei a trabalhar o ar como quem mistura doce de leite na panela: paciência, técnica e olho vivo. Enquanto os líderes tentavam um toplanding lá na frente, nós enchemos o tanque até o último bip e cruzamos o vale. Resultado? Passamos voando por cima dos favoritos. Os rookies assumiram a liderança.
No próximo trecho, encostamos numa face oeste sendo iluminada. A termal vinha linda… até que o vento do outro lado desmanchava tudo no topo. Um desafio técnico nível “bem-vindo ao X-Alps”. Foi aí que Chrigel Maurer e Aaron Durogati chegaram, e montamos um comboio de elite. Conservadores, respeitando o dia, subindo com cuidado. Até que Aaron atacou. Eu fui atrás, uns 50 metros mais baixo.
Depois de bater o terceiro turnpoint, chegamos baixos no maciço do Hahnenkamm. Alguns pousaram. Eu inclusive. Mas ainda tinha esperança. Fiz toplanding perto do bondinho, respirei, subi mais 100 metros, tentei decolar de novo. Nada. Mais um pouso.
De repente, vejo Chrigel Maurer — o maior vencedor da história do X-Alps — pousando abaixo de mim. Aquilo me deu uma injeção de ânimo. “Se o cara tá aqui, bora junto.” Subimos juntos, eu, Chrigel e o Christian Schugg. Lá do alto, voltamos a voar, batemos dois pilões e, quando me dei conta, estávamos no Top 10.
Subimos no lee side, em térmicas esfareladas. Cada bolha de ar era um presente. Cume. Assinamos a placa. Bora voar de novo.
Último desafio: um vale gigante, técnica no talo. Travessia tensa. Chrigel pousou. Eu quase. Estava a 100 metros do chão, buscando pouso quando...Microbolha. Me agarrei nela como quem segura o último pão de queijo no fim da trilha. Uma volta. Duas. Três. Quando vi, tava no topo da falésia, mirando a antena final.
Ganhei altura, ataquei com tudo. Vento forte, pedras gigantes me cercando, uma liftada violenta me fez ganhar altura. Planeio final com Nicolas Heneiger ao lado. Acelerador no talo. Pousamos juntos e corremos até o pórtico. Uma multidão nos esperando. Emocionante. Eu tava tão feliz que abracei até fotógrafo. Ninguém acreditava: os rookies tinham dominado o prólogo.
Primeiro dia. Primeira linha escrita. E que começo.
Prologue top 10 results:
Maxime Pinot (FRA2) – 3:48:01
Tim Alongi (FRA3) – 3:50:33
Shane Tighe (AUS) – 4:00:39
Nicola Donini (ITA3) – 4:26:54
Nicola Heiniger (SUI3) – 4:47:12
Gabriel Jansen Rabello (BRA) – 4:48:56
Christian Schugg (GER4) – 4:58:05
Lars Meerstetter (SUI4) – 4:58:44
Patrick Harvey-Collard (CAN2) – 5:02:42
Jean de Biolley (BEL2) – 5:03:56
...
-Gabe













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